terça-feira, 3 de março de 2009

A ARANHA E O REI

A ARANHA E O REI

No sótão de uma casa pobre vivia uma aranha. Dia a dia remendava a sua teia, ansiosa por caçar alguma mosca. Não tinha muitos motivos de queixa, porque, de vez em quando, caía na rede um mosquito incauto, e logo havia repasto. Não obstante, a aranha lamentava-se todos os dias. Tecia sem parar, e pela carapaça negra deslizavam-lhe lágrimas amargas.
-- Ai, tanto talento desperdiçado a caçar moscas e mosquitos! Uma tecelã como eu merecia viver num palácio e tecer as roupas de um rei.
Ouvindo os seus lamentos, um mosquito que tinha ficado preso, esperando confundir a aranha e escapar com vida, resolveu zumbir:
-- Não sei a causa de tantos lamentos. O teu sonho não é assim tão difícil de realizar. Tens patas, tens saúde, e ouvi dizer que possuis, como todas as tuas irmãs, um óptimo sentido de orientação. Abandona esta casa, que de tão velha cheira a mofo, e vai até ao palácio do rei. Decerto serás bem recebida.
A aranha achou sábias as palavras que acabara de ouvir, e nesse mesmo instante resolveu pôr-se a caminho. Tinha fome e queria prevenir-se para a longa viagem, logo comeu o mosquito que em tão boa hora a aconselhara. Caminhou com as suas oito patas até à janela, teceu um fio até à rua, avançou ao longo das paredes das casas, dos muros, dos ramos das árvores, e até dos pés dos transeuntes, chegou ao palácio, subiu as escadas de mármore, atravessou os salões entre os guinchos das damas e empoleirou-se no braço do trono real. O rei, enojado, descalçou um sapato e preparava-se para a matar quando a aranha, gritando a plenos pulmões para se fazer ouvir, deteve o gesto:
-- Vossa Majestade honra-me, permitindo a minha presença diante do Vosso real nariz. Foi o desejo de vos apresentar uma proposta irrecusável que me trouxe por árduos caminhos. Se ouvirdes o que tenho a dizer, decerto que não passará pelos Vossos olhos a tristeza do arrependimento.
O rei achou graça à prosápia da aranha e dispôs-se a ouvir. E ela, esticando as patas para parecer mais alta, continuou:
-- Venho de longínquos países, de terras exóticas. Trabalhei para outros reis tão poderosos como Vossa Majestade. O meu ofício? Tecer os mais belos fios, feitos de autêntico cristal, com os quais devem ser bordadas as roupas reais. Se Vossa Majestade permitir, bordarei todo um novo guarda-roupa que fará de vós a inveja do mundo.
O rei, apesar de possuir qualidades de grande monarca, era muitas vezes picado pelo bicho da vaidade. O seu rosto desceu e subiu num longo sim e perguntou:
-- E que queres em troca?
Tão inchada de orgulho estava a aranha, que até a voz lhe tremeu:
-- Oh, Vossa Majestade! O meu trabalho será a verdadeira recompensa. Apenas peço que, de vez em quando, me arranjem um mosquito aqui, uma mosca ali, para não perder tempo a sobreviver.
-- Feito – respondeu o rei.
Toda ela, nas suas oito patas e carapaça luzidia, emanava felicidade. Dia e noite tecia fios que não eram diferentes dos que usava para apanhar moscas, e a todo o momento pedia ao rei que viesse fazer provas.
Certa noite o rei, atendendo a mais um chamado, entrou cansado do dia de trabalho e na penumbra não viu que a tecelã se empoleirara no assento de uma cadeira para melhor o receber. Soltou um suspiro e escolheu precisamente esse sítio para se sentar. Termina assim a história da aranha que por tanto querer ser uma real tecelã, acabou esmagada debaixo de um real “sim senhor”.

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