sexta-feira, 3 de abril de 2009

A MORTE DA SARDANISCA

A MORTE DA SARDANISCA

Tempo de Estio. A vida é fácil, doce, melancólica como o Sol que desce. A pedra aquece até queimar os dedos, dormentes, que sentem vivo o minério. A pele rasga-se, abre-se, dá-se ao ar que penetra morno. Escutam os ouvidos para além do próximo. Toda a terra murmura em luxúria. Que odor emana das flores, tão forte agora, tão discreto outrora…
A sardanisca estica o pescoço, levanta a cabeça ao céu de um azul tão denso como um tecto. O espaço sideral desapareceu, engolido pela luz. Levanta a cabeça, os sentidos a palpitar, mantendo-se imóvel como se ela própria se tivesse tornado parte de um quadro estagnado. As abelhas colhem pólen, frenéticas, as formigas formam uma fila interminável de migalhas. As outras sardaniscas escondem-se à mais leve vibração. Encontram orifícios frescos no muro de pedra, multiplicando-se em afazeres diários. Ela não. Os dedinhos esticados, já tão quente a pele cinzenta ainda por manchar. Aquieta-se porque assim lho pede o Sol. As joaninhas pintalgam as flores, vorazes de pulgões. As lagartas escorrem das folhas que comem. Aquieta-se a sardanisca porque assim lho pede o Verão, com a cauda em curva perfeita contra a pedra que arde. Toda tocada pelo ar, sente prazer na imobilidade e no ópio das flores. Os pardais cantam ósculos, dançam, devoram. Os ratos juntam relíquias, enchem as tocas. As borboletas dão asas às flores. A sardanisca aquieta-se porque assim lho pede a Vida. E o doce perfume de Estio passa, também ele voraz do tempo que engole. Caem folhas de Outono em chamas, cobrem o mundo de ontem. Na pedra fria aos primeiros raios da manhã, a sardanisca aquieta-se porque assim lho pede a Morte.

1 comentário:

  1. O tempo passa ,e nos,nem sequer nos damos conta,como a sardanisca,e esse o mundo actual

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