VENENO DE RATO
O rato envenenado caiu redondo, as quatro patas viradas para o céu. As costas já não sentiam o frio do chão. Ficou assim, o seu corpo minúsculo apodrecendo no azulejo preto e branco, desfazendo-se com lentidão, até já pouco restar da sua fisionomia de rato. Veio o dono da casa a descobri-lo por baixo do frigorífico. Apanhou-o com a pá e deitou-o no lixo, um rato entre os milhares, milhões, biliões de ratos mortos desde o princípio do mundo. O precioso veneno, sempre a jeito no armário das bolachas, matava com regularidade. O homem espreitou a lata e sorriu ao seu conteúdo. O dia seguiu-se em silêncio de nojo. Os pássaros abafaram o pio perante a passagem da foice, não fosse algum garoto usar a fisga. Os cães não ladraram, a esses a morte cheira, mesmo distante. Os gatos cederam ao sono, sem ratos a quem perseguir. Chegou a noite e uma chiadeira agitou o silêncio propício à janta. O homem entrou na cozinha e sentou-se em frente ao prato. Mergulhou a colher no tacho e resmungou ‘Parece-me que ainda há muitos para matar’. A chiadeira aumentou parecendo gente apupando na arena. Irritado, o homem sorveu da colher, enquanto mirava a lata de raticida. Os olhos arregalaram-se perante a tampa aberta, as unhas cravaram-se na toalha de mesa. Foi a cadeira a primeira a ceder sob o seu peso morto. Caiu de costas, arrastando a louça, as mãos e as pernas buscando o céu. Assim ficou, o seu corpo apodrecendo, desfazendo-se com lentidão até pouco restar da fisionomia humana. O silêncio voltou. Não só na sua casa, também nas outras, nas ruas, no mundo inteiro.
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